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PROJETO ALIANÇA CLUBE 31

Tertuliano Dionísio

DIMENSÃO NORMATIVA

O Centro Histórico de Campina Grande é uma área deliberada e delimitada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba – IPHAEP, em 28 de junho de 2004, compreendendo um cinturão englobando ruas e praças centrais da cidade (Decreto Estadual nº 25.139/2004).

 

Entretanto, a obra analisada foi demolida no início dos anos 2000 – período em que não estaria incidente nenhum decreto ou lei de proteção ao bem imóvel.

DIMENSÃO HISTÓRICA

O contexto da cidade de Campina Grande-PB na década de 1960 era de modernização e consequente promoção das condições de status e civilidade perante a classe dominante da época.

 

A consolidação e difusão das tipologias de clubes na cidade representou uma nova vertente de reconhecimento e apropriação por parte da elite campinense, através da oferta de atividades de lazer, cultura, recreação entre outros; onde geralmente não possuíam acessibilidade para a sociedade em geral.

 

A atuação do arquiteto Tertuliano Dionísio em Campina Grande através de suas constantes relações com o poder público e privado, levou-o a projetar alguns edifícios dessa tipologia na cidade, tais como: O Clube do Trabalhador (1962), o Campinense Clube (1963) e o projeto para o Aliança Clube 31 (1694).

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DIMENSÃO ESPACIAL

O terreno de geometria irregular onde foi implantado o projeto possui 53,60m de fachada principal e 26m de fundo, bem como, 54m de recuo lateral do terreno para atividades esportivas. Assim, com uma área total de 2.464,50m².

 

Quanto ao agenciamento externo, utiliza-se de blocos de pedras e vegetações arbustivas/ rasteiras locais, com forração em grama. A locação das pedras nos caminhos é indutiva, interligando os espaços. Próximo à entrada principal e a área de playground, o arquiteto optou por um lago artificial e uma ilha de areia para diversificar e flexibilizar os usos recreativos do espaço.

 

Em relação ao espaço interno, Tertuliano concentrou toda a edificação sob um dancing central com espaço para mesas e próximo a um terraço com estrutura modulada exposta. Um restaurante externo com geometria circular é implantado como anexo ao volume principal da edificação e com visibilidade para o agenciamento externo.

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DIMENSÃO TECTÔNICA

O Aliança Clube 31 possuía um pórtico de entrada com materialidade de concreto e gradis em ferro. Sua forma de losango contínuo na cobertura, permitia uma entrada monumental para a obra. Quanto ao volume do edifício, sua lâmina cúbica maciça é contraposta à leveza espacial gerada pela subtração volumétrica da área dos terraços, com o uso de pilotis de concreto armado.

 

Em corte, é possível perceber que a coberta da edificação é dinâmica e possuía sentidos distintos para as águas, chamando atenção para a cobertura da área do dancing, onde a iluminação era indireta por janelas altas. Todo o arremate da cobertura é envolto por uma platibanda em alvenaria de tijolos pintada na cor branca, silenciando o volume da coberta e reforçando a horizontalidade da arquitetura proposta (bloco térreo).

DIMENSÃO FORMAL

A obra adota uma linguagem racional, com materiais e técnicas locais que simplificam e concebem a plasticidade clássica da modernidade arquitetônica. As funções propostas em planta materializam- -se em uma sua volumetria externa e concebem um diálogo entre forma e função.

 

Com uma planta baixa setorizada e modulada, o zoneamento expressa a clareza da funcionalidade e flexibilidade proposta pelo projeto. Além de demarcar contrastes entre as volumetrias de toda a edificação com volume principal cúbico e o restaurante com forma circular e estrutura independente.

 

A fachada principal do projeto é valorizada pela implantação de um pórtico de entrada que demarca o acesso principal através de uma estrutura leve em concreto sustentada por pilares centrais e intersecionada com um painel de concreto revestido em pedras onde dispõe-se a identificação do clube, popularmente conhecido como “o 31”, grafada em uma superfície circular de latão de bronze.

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DIMENSÃO FUNCIONAL

A implantação do edifício no centro da cidade e inclusão no arcabouço da arquitetura moderna da época – tendo em vista a concentração de “novos” edifícios às margens do Açude Velho, denota uma certa importância na afirmação de uma paisagem urbana moderna da Campina Grande da década de 1960 a 1980.

 

Os usos propostos para o edifício estavam inseridos em uma lógica de apropriação da sociedade de elite da época, preservando-o assim suas funções e atividades em seu período de funcionamento, até o período de sua demolição - no ano de 2000.

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DIMENSÃO DA CONSERVAÇÃO

As problemáticas abordadas culminam na reflexão de algumas perspectivas e desafios, no que se refere a preservação do patrimônio arquitetônico em suas diferentes dimensões:

 

1 - Por se tratar de um patrimônio do século XX, seu reconhecimento e valorização torna-se inerente a determinados grupos, tais como: Academia, órgãos preservacionistas, entre outros. Ademais, considerando a recorrente resistência na apropriação e inclusão do patrimônio art dèco e eclético, em diversas médias e pequenas cidades brasileiras, tidos como bens “velhos” que atrasam e congelam a dinâmica das cidades. O patrimônio moderno traz consigo uma série de problemáticas ainda maiores, por se tratarem de imóveis “recentes” passíveis de abrigarem novos usos com maior facilidade, desencadeando descaracterizações e demolições em massa.

 

2 - Uma agente determinante na consolidação das tipologias da contemporaneidade (farmácias, supermercados, shoppings, torres empresariais e residenciais, estacionamentos, e etc.) em detrimento do patrimônio histórico e arquitetônico é a especulação imobiliária.

 

Essa “feroz” e rápida lógica capitalista vem substituindo a arquitetura presente nos centros das cidades brasileiras, onde geralmente estão presentes os “palimpsestos urbanos”, ou seja, a história e a memória materializadas na arquitetura e no urbanismo de cada lugar.

 

3 - A temática preservacionista nos pequenos e médios centros urbanos corroboram para um processo de afirmação de uma arquitetura “específica”, produzida por arquitetos locais e regionais (FREIRE, 2007).

 

Com isso, a disseminação da discussão do “pequeno patrimônio” (CARRIÓN, 2000), torna-se ainda mais evidente, na medida em que são produzidas em determinados contextos e, portanto, não representam a coletividade. Contudo, a preservação das técnicas e critérios, utilizadas por estes(as) arquitetos(as), que tentaram adaptar os princípios projetuais da modernidade arquitetônica a cada especificidade local e que tiveram como produto edifícios racionais e bioclimáticos, necessitam ser vistos como objetos de discussões na preservação da memória coletiva e cultural.

 

4 - A questão da propriedade apresenta-se como um fator determinante na preservação de bens de caráter privado, tendo em vista, que estão susceptíveis a conservação por proprietários e herdeiros que geralmente não possuem sensibilidade na utilização e procedência do bem – sendo comumente alugados ou vendidos para terceiros.

 

A falta de incentivos pelas instâncias governamentais e preservacionistas para a manutenção desses imóveis, impulsiona o processo de perca desse patrimônio, considerando a desvantagem imposta ao proprietário em “congelar” sua edificação.

 

5 - A respeito das fontes primárias e secundárias – considerando o edifício como um documento edificado (KATINSKY, 2005), tem-se as questões de conservação do bem e de seus registros. Muitos acervos não apresentam condições necessária de manutenção e armazenamento desses documentos, o que leva ao processo de desgaste e o consequente desaparecimento dessa produção, reafirmando a importância da utilização das ferramentas digitais na recuperação física e imagética desse acervo.

 

Ressaltando a importância em não somente preservar o patrimônio existente, mas em resgatar e (re) viver o patrimônio apagado e esquecido do século XX.

 

Quanto a importância da preservação da documentação na arquitetura moderna, temos que a própria documentação atualizada para novas tecnologias pode contribuir para a preservação cultural de edifícios de importante valor cultural, além de diversas aplicações na educação patrimonial.

 

No atual cenário de desarticulação entre as esferas municipais, estaduais e federais para a salvaguarda do patrimônio, que culmina na demolição de exemplares modernos que não recebem a devida proteção e nos arquivos esquecidos pelo poder público, o uso de novas tecnologias demonstram potencialidades no resgate da produção moderna.

REFERÊNCIAS

ARRIÓN, F. M. Vinte temas sobre os centros históricos na América Latina. In: Gestão Del Patrimônio Cultural Integrado, Vol. 1 Iss. Gestão Del Patrimônio Cultural Integrado. 2000.

 

FREIRE, A. Arquitetura Moderna Residencial de Campina Grande: registros e especulações (1960/1969). João Pessoa: Monografia apresentada como trabalho final de graduação em Arquitetura e Urbanismo ao Centro de Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba, 2007.

 

KATINSKY, J. R. Pesquisa Acadêmica na FAUUSP. São Paulo: FAUUSP. 2005.

 

PEREIRA, I. et al. O redesenho como ferramenta de reconstrução: (re)vivendo o antigo Aliança Clube 31 na paisagem urbana central de Campina Grande-PB. In: Anais do 6º Seminário Ibero-Americano Arquitetura e Documentação. Belo Horizonte, MG. 2019. Disponível em < https://www.even3.com. br/anais/seminarioarqedoc2019/> Acesso em: 20 de jun. 2020

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